Navegando na internet um dia desses, encontrei um site brasileiro dedicado ao maior estúdio de animação do Japão, o Studio Ghibli, de Hayao Miyazaki e me lembrei do primeiro filme do estúdio que eu assisti, e, que até hoje é considerado uma das obras mais bem feitas da animação japonesa e a obra prima do diretor: “Nausicaä do Vale do Vento”.

Mas antes de falar do filme em si, vamos contar um pouquinho da história deste que é um dos mais premiados e respeitados artistas do mundo.

Hayao Miyazaki, que ficou famoso aqui no Brasil com o incrível “A Viagem de Chihiro”, começou a se aventurar pelo mundo dos desenhos animados quando ainda estudava Ciências Políticas e Econômicas na faculdade. Em 1962 ele começou a trabalhar no estúdio de animação Toei como intervalador, o cara que era responsável pela junção das películas dos desenhos. Foi na Toei Animation que o diretor conheceu aquele que seria um de seus maiores parceiros, Isao Takahaka. O primeiro trabalho de expressão do diretor foi o longa “Hols: Prince of the Sun”, consolidando a parceria entre Miyazaki, Takahaka e Yasuo Otsuka. Parceria essa que continuou mesmo após a saída dos três artistas da Toei em 1971.

Em 1979 Miyazaki dirigiu sua primeira série para a TV japonesa: “Future Boy Conan”. E foi no ano seguinte que ele dirigiu seu primeiro longa metragem animado: “O Castelo de Cagliostro”. Paralelamente a isso, Miyazaki produzia aquela que seria sua obra prima, o mangá “Nausicaä do Vale do Vento”, que logo foi adaptado para o anime de longa metragem épico e maravilhoso. Tido por muitos como o maior, melhor e mais emocionante filme de Miyazaki, Nausicaä fez tanto sucesso que permitiu que o diretor concretizasse a criação do Studio Ghibli junto com o colega Isao Takahaka. Desde então, o estúdio vêm produzindo animações de altíssima qualidade que fazem com que seja o estúdio de animação mais influente do Japão.

“Nausicaä do Vale do Vento” nasceu da fascinação de Miyazaki pela personagem da Mitologia Grega de mesmo nome que aparece no livro “Odisséia”. Nausicaä era uma jovem princesa muito bonita e sonhadora, que vivia na ilha de Feácia. Foi ela quem salvou Odisseu, quando este apareceu ferido em uma das praias da ilha. Pressionado pelos pais da moça, Odisseu partiu sem demora, o que deixou o coração de Nausicaä muito triste.
Miyazaki sempre gostou de comparar a princesa grega com uma princesa das fábulas japonesas. Essa princesa, vinda de uma família aristocrática, era tratada como sendo uma moça estranha por ter hábitos, digamos, deferentes, além de possuir sobrancelhas escuras e dentes muito brancos, coisas incomuns naquela época. Apesar de sua idade, a moça se divertia brincando nos campos e observando a magia da natureza, sendo sua maior paixão, a vida dos insetos. Mas infelizmente, como costuma enfatizar Miyazaki, diferente de Nausicaä, essa “princesa japonesa que adorava insetos” nunca teve um Odisseu para salvar em suas praias. Todo esse turbilhão de sentimentos transformou a princesa grega Nausicaä em uma personagem importante de Hayao Miyazaki, uma garota sensível, porém forte e corajosa, a heroína que, em poucas ações, cativa a atenção e a admiração do espectador logo de início.


A história do anime se passa mil anos após a chamada Guerra dos Setes Fogos, quando metrópoles inteiras decaíram devido à alta quantidade de substâncias tóxicas que jogavam na atmosfera. O mundo moderno, as indústrias e a alta tecnologia foram engolidas pelo tempo e esquecidas para sempre. A maior ameaça presente nesse mundo apocalíptico é a expansão contínua dos Fukai, gigantescas florestas de fungos que sopram um gás venenoso na atmosfera, letal a todas as formas de vida, com exceção dos insetos, que acabaram se desenvolvendo de maneira descontrolada e se tornaram monstros gigantes e ameaçadores. Não se sabe como surgiram os Fukai e nem como evitar que eles devastem o pouco que sobrou do mundo. É nesse cenário que Nausicaä, a jovem princesa do pequeno reino do Vale do Vento, uma doce moça que tem uma incrível empatia com os animais, inclusive os gigantescos Ohmu, imensos insetos encouraçados que habitam os Fukai, busca compreender a origem e a função daquelas belas e podres florestas, enquanto se vê representante de seu povo, já que seu pai, governante do Vale, foi infectado pelo veneno dos Fukai. O ambiente hostil em que se passa a trama contribui para quebrar conceitos de bem e mal, já que todos estão em uma única batalha pela sobrevivência da raça humana.

Um roteiro primoroso, uma qualidade técnica de fazer inveja aos maiores estúdios de animação do mundo aliados a personagens cativantes e profundos, cenários de tirar o fôlego e uma animação impecável, fazem de Nausicaä um filme imperdível, que vai emocionar a todos e alimentar a imaginação daqueles que adoram aventuras épicas e heróicas. O filme, que eu saiba, nunca foi distribuído oficialmente aqui no Brasil, o que é uma pena, mas não é difícil encontrá-lo disponível para download na internet, além de gravações em DVD no bairro da Liberdade em São Paulo.

Em paralelo a isso, o mangá “Nausicaä do Vale do Vento” já está em seu 5º volume aqui no Brasil, editado pela Conrad Editora. Também vale a pena dar uma conferida nos desenhos majestosos e na narrativa envolvente desta obra eterna que já embala os japoneses há vários anos.

Só nos resta torcer para que, depois de “A Viagem de Chihiro” e “O Castelo Animado”, alguma distribuidora traga todos os outros fantásticos filmes de Miyazaki aqui para o Brasil.
Fontes: http://merafantasia.blogspot.com/ e http://site.studioghibli.com.br/